Cardiologia

 

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1. Quais as indicações da cintilografia de perfusão miocárdica?

2. Qual a justificativa para empregar a cintilografia de perfusão miocárdica na investigação de isquemia miocárdica? A avaliação direta das coronárias não seria mais recomendável?

3. Quais as diferenças entre os principais radiofármacos utilizados para o estudo de perfusão miocárdica: Tálio-201, MIBI-99mTc e Tetrofosmin-99mTc?

4. Quais as indicações e contra-indicações para o teste de esforço e para os testes farmacológicos com adenosina, dipiridamol e dobutamina?

5. Quais as principais indicações e informações fornecidas pela ventriculografia radioisotópica de equilíbrio (Gated blood pool) ?

Respostas elaboradas pela Dra. Mariza Izaki, médica nuclear do Serviço de Radioisótopos do InCor em São Paulo-SP.


6. Qual o valor da cintilografia de perfusão miocárdica na avaliação do prognóstico e predição de eventos cardíacos em pacientes com doença arterial coronariana?

7. Quais os possíveis padrões de perfusão miocárdica observados em pacientes com distúrbio de condução do ramo esquerdo (DCRE)? Qual a justificativa para cada um dos padrões observados?

8. Quais são os fundamentos e as principais indicações para a pesquisa de necrose miocárdica com pirofosfato-99mTc?

9. Qual a importância da cintilografia de perfusão miocárdica na avaliação de pacientes que serão submetidos a cirurgias não cardíacas?

10. Há indicação da cinitlografia de perfusão miocárdica em pacientes já submetidos a procedimentos de revascularização do miocárdio?

Respostas elaboradas pelo Dr. Fernando Salis, médico nuclear so Serviço Rio Preto de Medicina Nuclear, em São José do Rio Preto-SP.


11. Quais os indicadores de alto risco em pacientes com doença arterial coronariana (DAC) na cintilografia de perfusão do miocárdio?

12. Em pacientes submetidos à trombolítico após IAM, qual o papel da cintilografia de perfusão do miocárdio (na fase aguda)?

Respostas elaboradas pela Dra. Anneliese Thom, médica nuclear colaboradora do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia em São Paulo-SP.


13. Como e para quê é caracterizada a viabilidade miocárdica pela Medicina Nuclear?

14. Quais parâmetros adicionais são obtidos na cintilografia de perfusão miocárdica quando se utiliza a aquisição sincronizada com o ECG (gated-SPECT)? Qual a importância desses parâmetros?

15. Qual a importância do estudo de perfusão miocárdica na investigação de dor precordial aguda?

Respostas elaboradas pelo Dr. Celso Dario Ramos, médico nuclear do Hospital das Clínicas da UNICAMP em Campinas-SP.


1. Quais as indicações da cintilografia de perfusão miocárdica?

São várias as indicações da cintilografia de perfusão miocárdica. As principais são:
a) no diagnóstico de isquemia miocárdica decorrente de coronariopatia obstrutiva em pacientes com probabilidade pré-teste intermediária. Exemplos: paciente assintomático com teste ergométrico positivo, paciente sintomático com teste ergométrico negativo, mulheres com angina atípica, etc.
b) em pacientes com coronariopatia obstrutiva conhecida, a cintilografia é importante na avaliação da repercussão isquêmica de lesão limítrofe (30 a 60% de obstrução pela coronariografia),
c) em coronariopatas é importante na estratificação de risco e avaliação prognóstica de pacientes com angina estável, e conseqüentemente no auxílio da decisão terapêutica (clínica X cirúrgica).
d) na estratificação de risco pós-IAM e angina instável e na estratificação de risco para pacientes que vão se submeter a cirurgias não cardíacas (em especial vascular)
e) na avaliação de isquemia após procedimento de revascularização miocárdica ou angioplastia. (detecção de reestenose ou complicações)
f) detecção da presença de viabilidade miocárdica em pacientes com miocardiopatia isquêmica com disfunção ventricular
g) diagnóstico precoce de isquemia em unidades de dor torácica
h) avaliação de isquemia na população pediátrica nos casos de anomalia coronariana congênita e doença de Kawasaki.

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2. Qual a justificativa para empregar a cintilografia de perfusão miocárdica na investigação de isquemia miocárdica? A avaliação direta das coronárias não seria mais recomendável?

São dois exames cujos princípios são distintos, e não necessariamente excludentes.
Inicialmente a cintilografia é um estudo não-invasivo, enquanto a coronariografia é invasiva, portanto mais sujeita às complicações. Isquemia miocárdica por definição caracteriza-se por uma desproporção entre oferta e consumo de oxigênio e a cintilografia miocárdica é capaz de diagnosticar a presença de isquemia, enquanto a coronariografia avalia a presença de lesão obstrutiva nas coronárias, e esta não necessariamente leva à isquemia, que depende de fatores como circulação colateral, massa muscular envolvida além da subjetividade na quantificação das lesões.
O resultado da cintilografia além da alta sensibilidade (> 85%) e especificidade (> 85%) no diagnóstico da presença de isquemia miocárdica, fornece dados de importância prognóstica, que são a base da conduta terapêutica. Pacientes com cintilografia de perfusão normal , apresentam um risco de eventos cardíacos menores que 0,5 % ao ano, mesmo pacientes sabidamente coronarianos, com angina estável, diante de uma cintilografia miocárdica normal, apresentam um risco de eventos cardíacos em torno de 0,9 % ao ano (Maddahi, 2001). Por outro lado, um exame alterado, vai definir prognóstico, além de auxiliar na decisão terapêutica. Quanto maior a extensão e a intensidade das alterações à cintilografia, maior é a chance de eventos cardíacos (Lette,1995 ). O achado de dilatação transitória da cavidade ventricular esquerda nas imagens após o estresse e/ou incremento na captação pulmonar de tálio-201, definem uma situação de altíssimo risco para eventos futuros com um valor preditivo positivo de 70 %. Quando comparamos a porcentagem de eventos cardíacos ao ano de pacientes submetidos à terapêutica medicamentosa com pacientes submetidos à revascularização miocárdica, de acordo com os achados da cintilografia de perfusão miocárdica, constatamos que nos casos com alterações discretas, a sobrevida é muito semelhante, enquanto diante de alterações de grau acentuado a população com tratamento clínico apresenta taxa de 4.6 % de eventos cardíacos ao ano contra 1,3 %/ ano da população submetida à revascularização. (Hachamovitch , 1998). A introdução da aquisição de imagens sincronizadas ao ECG (Gated SPECT), proporcionou ainda a possibilidade da adição da avaliação da função ventricular esquerda aos achados da perfusão miocárdica. Portanto o uso da cintilografia não se restringe unicamente ao diagnóstico apresentando dentro do contexto clínico um papel muito mais amplo na condução de pacientes.

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3. Quais as diferenças entre os principais radiofármacos utilizados para o estudo de perfusão miocárdica: Tálio-201, MIBI-99mTc e Tetrofosmin-99mTc?

O mais importante é ressaltar que não há diferenças significativas de sensibilidade ou especificidade em termos diagnósticos entre os radiofármacos, independentemente do tipo de estresse utilizado. Os traçadores marcados com tecnécio-99m (SESTAMIBI-99mTc e Tetrofosmim-99mTc) apresentam pequenas diferenças entre si na biodistribuição (relação hepato-renal) e pequenas diferenças técnicas ( marcação a quente X marcação a frio ). As imagens são praticamente indistinguíveis. Na grande rotina clínica, os traçadores marcados com tecnécio-99m são mais utilizados por apresentarem características físicas mais adequadas à câmara de cintilação, pela sua maior disponibilidade e menor custo operacional. Apenas em situações específicas como na avaliação da presença de viabilidade miocárdica em pacientes com miocardiopatia isquêmica, o estudo com tálio-201 (com protocolo de reinjeção) apresenta sensibilidade superior ao estudo convencional utilizando radiofármacos marcados com tecnécio-99m.

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4. Quais as indicações e contra-indicações para o teste de esforço e para os testes farmacológicos com adenosina, dipiridamol e dobutamina?

Vale aqui também a pena comentar que a acurácia diagnóstica do exame é semelhante independente do tipo de estresse utilizado.

Cintilografia de perfusão miocárdica com:

 
Teste ergométrico
dipiridamol
adenosina
dobutamina
sensibilidade
85 %
87 %
88 %
91 %
especificidade
87 %
85 %
85 %
84 %

A cintilografia com teste ergométrico (protocolo de Bruce ou Ellestad) é a primeira escolha por ser a avaliação mais fisiológica. Contra-indicações: ICC descompensada, angina instável não controlada, HAS severa não controlada, IAM < 2 dias, estenose aórtica severa, Cardiomiopatia hipertrófica obstrutiva.
A cintilografia com dipiridamol ou adenosina está indicada nas situações com incapacidade de realização de exercício adequado como: insuficiência vascular periférica, problemas ortopédicos, doenças pulmonares (exceto asma), doenças neurológicas, obesidade mórbida, pacientes com medicação (beta-bloqueadores, digitais,etc.) e é o estresse preferencial em portadores de bloqueio de ramo esquerdo (BRE) ao eletrocardiograma. Há necessidade de excluir da dieta cafeína, aminofilina e xantinas pois o consumo destes pode acarretar em resultados falso-negativos. Contra-indicações: < 48 hrs angina instável, asma brônquica, BAV 2º grau, doença do nó sinusal e hipotensão arterial.
A cintilografia com dobutamina está indicada nos pacientes que não podem submeter-se ao exercício, nem ao dipiridamol / adenosina. Contra-indicações: Angina < 48 hrs, IAM recente, disfunção VE severa, HAS severa, estenose aórtica severa, fibrilação atrial de alta resposta.

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5. Quais as principais indicações e informações fornecidas pela ventriculografia radioisotópica de equilíbrio (Gated blood pool) ?

A ventriculografia radioisotópica é um método não-invasivo de avaliação da função, que permite a avaliação qualitativa e quantitativa da função biventricular (global e segmentar) simultaneamente. Embora se utilize de material radioativo ( 280 µCi/kg de pertecnetato de sódio-99mTc) na marcação “in vivo” de hemácias, vale a pena ressaltar que os riscos de contaminação do sangue bem como a taxa de exposição radioativa são extremamente baixos, o que permite sua utilização seriada no seguimento de adultos e crianças. Efeitos colaterais são praticamente inexistentes. Neste estudo, o paciente é monitorado e seu sinal eletrocardiográfico é utilizado como marcador de referência do ciclo cardíaco. São adquiridas imagens seqüenciais ( de 16 a 64 ) do intervalo R-R do eletrocardiograma durante cerca de 15 a 20 minutos, o que permite a análise de uma quantidade bastante significativa de batimentos cardíacos ( cerca de 600 a 900 ).
Além da análise visual (qualitativa) da contração cardíaca, através da avaliação das contagens radioativas obtidas das fases sistólica e diastólica do ciclo cardíaco, é possível obter parâmetros quantitativos da fração de ejeção de ventrículo esquerdo, fração de ejeção do ventrículo direito, frações de ejeção segmentares, fração de regurgitação, parâmetros indiretos da função sistólica e diastólica como taxa máxima de esvaziamento ventricular (PER) e taxa máxima de enchimento ventricular (PFR). Consideram-se como valores normais o achado de uma fração de ejeção do ventrículo esquerdo (FEVE) maior ou igual a 55 % e de uma fração de ejeção do ventrículo direito (FEVD) maior ou igual a 45 %.
As indicações clínicas principais são na avaliação ventricular nos casos de: coronariopatias, valvopatias, miocardiopatias, miocardites, cardiopatias congênitas, transplante cardíaco , cor pulmonale, etc.
O estudo pode ser realizado em várias projeções, o que possibilita a avaliação de segmentos miocárdicos distintos ( ex: ICO ). Pode também ser realizado na vigência de exercício isométrico, exercício isotônico e durante infusão de drogas, visando avaliar a reserva miocárdica (ex: ICO, valvopatias, etc.) Em comparação com outros métodos de avaliação da função ventricular, a ventriculografia radioisotópica apresenta-se como um método bastante reprodutível, independente de alterações morfo-geométricas dos ventrículos e apresentando baixa variação inter e intra-observador (ex:seguimento de miocardiopatias).

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6. Qual o valor da cintilografia de perfusão miocárdica na avaliação do prognóstico e predição de eventos cardíacos em pacientes com doença arterial coronariana?

A cintilografia de perfusão miocárdica apresenta papel fundamental na avaliação de prognóstico e predição de eventos em todos os segmentos e formas de apresentação da Doença Arterial Coronariana. O estudo é capaz de estratificar pacientes estáveis e sabidamente coronariopatas em baixo risco (taxa inferior a 0,8% ao ano) ou alto risco (acima de 3% ao ano) para eventos ou morte de causa cardiovascular, conforme a perfusão miocárdica mostre-se normal ou marcadamente alterada; infere prognóstico na estratificação pós-infarto com grande poder de diferenciar os pacientes que terão boa evolução de acordo com os achados do scan (como localização, tamanho da área do infarto, presença de isquemia residual e desempenho contrátil do ventrículo esquerdo) e também possui importante papel na triagem de pacientes com dor torácica na sala de emergência, com valores de predição negativo para eventos cardiovasculares, diante de um padrão perfusional normal, próximo a 99%.

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7. Quais os possíveis padrões de perfusão miocárdica observados em pacientes com distúrbio de condução do ramo esquerdo (DCRE)? Qual a justificativa para cada um dos padrões observados?

A principal visão que se deve ter em relação aos defeitos perfusionais encontrados no distúrbio de condução do ramo esquerdo (DCRE) é que os mesmos não se tratam de um mero artefato, apesar de serem muitas vezes observados em pacientes sem detecção anatômica de coronariopatia! Os achados comumente observados são: defeito (discreto, moderado ou acentuado), fixo, parcialmente reversível ou totalmente reversível, com ou sem assincronismo contrátil associado e podendo ser restritos ao septo ou acometer as regiões ântero septal ou até mesmo parte da região inferior. A explicação mais plausível para estes achados é a diminuição do período diastólico (período em que ocorre a perfusão do músculo) destas regiões em relação à região lateral do VE, mais as alterações morfológicas do ventrículo (dilatação – disfunção) em decorrência da alteração da seqüência de despolarização na presença de DCRE. É muito importante ressaltar que mesmo na ausência de coronariopatia, a extensão e a intensidade estes achados perfusionais são preditores de pior prognóstico na evolução clínica destes pacientes.

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8. Quais são os fundamentos e as principais indicações para a pesquisa de necrose miocárdica com pirofosfato-99mTc?

O fundamento básico para o uso do pirofosfato no infarto agudo do miocárdio é a sua capacidade de se ligar ao cálcio. Sabidamente, nos casos de sofrimento isquêmico acentuado ou necrose da célula miocárdica, ocorre um aumento significativo do cálcio intracelular. Vale ressaltar que a captação do pirofosfato não prediz necrose ou irreversibilidade celular, e sim sofrimento isquêmico severo com aumento de cálcio em seu interior, não sendo portanto um traçador específico de necrose celular. Não é recomendado o seu uso em salas de emergências (pelo seu pico de captação de 24 a 48 horas após o evento isquêmico). Destacaria as duas principais indicações naqueles casos com dificuldades de se estabelecer diagnóstico, como na presença de alterações do ECG de base (como BRE) e suspeita de evento coronariano agudo em casos intraoperatórios. O uso do pirofosfato não mostra bom resultado na situação de infarto não Q (onde não ocorre o envovlimento transmural da parede do VE).

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9. Qual a importância da cintilografia de perfusão miocárdica na avaliação de pacientes que serão submetidos a cirurgias não cardíacas?

O papel da cintilografia de perfusão miocárdica nesta situação resume-se em diagnosticar a presença de coronariopatia (em pacientes não sabidamente coronariopatas) ou estratificar o risco cirúrgico (em pacientes sabidamente coronariopatas em tratamento clínico).
Na avaliação pré cirurgica leva – se em conta o risco intrínsico do ato cirúrgico (e isto geralmente é feito em relação ao porte da cirúrgia e seu potencial de perda sanguínea durante o ato) e os riscos relacionados ao paciente, sendo o componente cardiovascular o principal alvo a ser avaliado. Estudos normais, ou com pequenas alterações discretas acompanhados de uma função ventricular esquerda normal incute um bom prognóstico cirúrgico, com muito baixo risco de eventos cardiovasculares no intra e no pós operatório. Por outro lado, moderados a grandes defeitos reversíveis principalmente quando associados a disfunção ventricular esquerda indicam um risco aumentado, devendo primeiro serem corrigidos (tratados) para posterior realização do ato operatório.

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10. Há indicação da cinitlografia de perfusão miocárdica em pacientes já submetidos a procedimentos de revascularização do miocárdio?

Há indicação absoluta da cintilografia de perfusão miocárdica nas situações após procedimento de revascularização miocárdica. Nestas situações, o estudo de perfusão desempenha papel na avaliação do resultado do procedimento, na pesquisa de isquemia residual, na avaliação do desempenho contrátil segmentar e global do ventrículo esquerdo e principalmente no seguimento destes pacientes para o diagnóstico precoce de possível perda de resultado do procedimento realizado.
No seguimento destes pacientes, o papel do teste ergométrico isolado apresenta importante limitação, pois, muitas vezes após o procedimento realizado com sucesso, o teste ergométrico ainda permanece alterado, sendo indicação (casse I) o estudo de imagem provocativo de isquemia para melhor avaliação.

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11. Quais os indicadores de alto risco em pacientes com doença arterial coronariana (DAC) na cintilografia de perfusão do miocárdio?

No doente sabidamente com DAC os seguintes achados indicam que há alto risco de evento grave (infarto ou morte):
a. Hipoconcentração do indicador de perfusão fortemente diminuída em uma extensão de pelo menos 2/3 de uma das paredes do miocárdio e que reverte totalmente no repouso. O achado revela particular gravidade quando o defeito se localiza na parede anterior. Ao encontrar este padrão de cintilografia, compatível com isquemia extensa e grave, o médico nuclear deve imediatamente notificar o cardiologista responsável pelo paciente.
b. Outros elementos indicativos de comprometimento cardíaco grave referem-se à função ventricular, avaliada pela inspeção dos próprios cortes tomográficos e pelo gated SPECT:
• dilatação da cavidade ventricular, principalmente se esta dilatação for maior no estudo pós-esforço (é um parâmetro difícil de validar, porque a normalização de imagens com estatística de contagem muito diferente pode causar o efeito de volume parcial);
• paredes ventriculares muito adelgaçadas (o que traduz diminuição da excursão das paredes entre diástole e sístole);
• FEVE com valor inferior a 30%.
• Se o radiofármaco usado for tálio-201, um elemento adicional de gravidade é a presença de radioatividade nos pulmões no estudo após o teste ergométrico (indicativo de um pequeno grau de edema pulmonar durante a realização de exercício).

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12. Em pacientes submetidos à trombolítico após IAM, qual o papel da cintilografia de perfusão do miocárdio (na fase aguda)?

De regra, o cardiologista não pede uma cintilografia de controle após trombolítico se o paciente se encontra estável. Se o paciente continua a ter dor , deverá ser submetido a uma cintilografia com stress farmacológico (dipiridamol) e em repouso, para verificar se ainda existem áreas em risco, ou seja, que apresentem hipoperfusão transitória. Em caso positivo, o doente é, via de regra, submetido a novo cateterismo. A cintilografia sob stress farmacológico pode ser feita a partir de 48h do evento agudo.
Se a cintilografia for normal, comprova-se o sucesso da trombólise. Se mostrar área com hipoperfusão persistente, pode-se deduzir que a trombólise não foi bem sucedida. Porém, o tecido revascularizado pode ainda estar “entorpecido” (stunned).
De qualquer forma, não se indica nova intervenção. Acontece frequentemente que em cintilografias posteriores venha a se observar a paulatina recuperação da capacidade de “captação” da área que parecia fibrosada (desaparecimento do efeito de entorpecimento do miocárdio).

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13. Como e para quê é caracterizada a viabilidade miocárdica pela Medicina Nuclear?

Após o infarto do miocárdio, a área infartada pode necrosar e ser substituída por fibrose ou permanecer viável, apesar de metabolicamente alterada. Após um evento isquêmico agudo, esse miocárdio metabolicamente alterado é chamado de miocárdio "stunned" (atordoado). Se o miocárdio encontra-se cronicamente isquêmico, ocorre um fenômeno adaptativo de modo que o tecido passa a metabolizar quase que exclusivamente glicose como substrato energético. Essa adaptação é chamada de "hibernação" miocárdica. O termo “viabilidade miocárdica” em geral se refere aos tecidos “stunned” e “hibernante”.

A viabilidade miocárdica é caracterizada na Medicina Nuclear pela demonstração de tecido miocárdico metabolicamente ativo em determinada parede do coração que se encontra acinética (ou acentuadamente hipocinética ou discinética), em geral, após a ocorrência de infarto do miocárdio.

A demonstração de miocárdio metabolicamente ativo, e portanto viável, pode ser feita com diferentes radiofármacos, sendo os mais comuns: SESTAMIBI-99mTc (que mostra atividade mitocondrial), tálio-201 (que avalia a integridade da membrana celular e o funcionamento da bomba de sódio-potássio) e FDG-18F (um análogo radioativo da glicose, usado para detectar o metabolismo glicolítico). Na prática clínica da maior parte dos serviços de Medicina Nuclear, o cloreto de tálio-201 é o radiofármaco mais utilizado para pesquisar viabilidade miocárdica.

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14. Quais parâmetros adicionais são obtidos na cintilografia de perfusão miocárdica quando se utiliza a aquisição sincronizada com o ECG (gated-SPECT)? Qual a importância desses parâmetros?

Quando se utiliza a aquisição sincronizada com o ECG (gated-SPECT), além da informação sobre a perfusão miocárdica em “stress” – físico ou farmacológico – e em repouso, obtêm-se, também, diversos parâmetros sobre a função miocárdica. Dentre esses parâmetros, os mais freqüentemente utilizados possibilitam tanto o estudo da função global do ventrículo esquerdo (VE), como a fração de ejeção e os volumes sistólico e diastólico do VE, quanto o estudo da função regional, como as análises da movimentação e do espessamento das paredes miocárdicas.

É interessante ressaltar que não há aumento significativo no tempo necessário para a aquisição das imagens gated-SPECT em relação ao estudo convencional (SPECT). Também não há aumento do custo do procedimento. Inclusive por isso, pode-se afirmar que essa metodologia revolucionou o uso da Medicina Nuclear em Cardiologia. Desde o advento gated-SPECT no início dos anos 90, a avaliação simultânea da perfusão e da função otimizou o uso do método para diagnóstico, estratificação de risco e para a decisão do tratamento a ser instituído para o paciente com suspeita ou diagnóstico conhecido de coronariopatia.

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15. Qual a importância do estudo de perfusão miocárdica na investigação de dor precordial aguda?

No Pronto Socorro, a causa mais comum de dor torácica aguda de etiologia cardíaca é a síndrome coronária aguda (SCA). Essa síndrome possui um espectro de apresentações que pode ir desde uma angina instável com resolução espontânea sem necrose miocárdica importante, até um extenso infarto agudo do miocárdio (IAM) com grande necrose miocárdica, seguido de óbito. Em comum a todas essas apresentações, ocorre a formação de um trombo numa placa ateromatosa instável, que interrompe agudamente o fluxo sangüíneo coronariano.

A avaliação inicial desses pacientes inclui história clínica, exame físico e eletrocardiograma (ECG). O ECG identifica pacientes com IAM e angina instável, mas freqüentemente não é diagnóstico. Em muitos casos, principalmente quando o ECG é inconclusivo, são dosados marcadores séricos de lesão miocárdica (troponinas, CKMB). Entretanto, esses marcadores apresentam baixa sensibilidade na abordagem inicial.

Dessa forma, menos de 20% dos pacientes internados com suspeita de SCA têm o diagnóstico confirmado, o que evidencia o enorme desperdício de recursos com internações e procedimentos desnecessários. Por outro lado, pelo menos 6% dos pacientes dispensados no Pronto Socorro apresentam IAM não diagnosticado. A mortalidade desses pacientes chega a 25%. Nos Estados Unidos, essa é a principal causa de processos jurídicos por má prática médica. Fica evidente a extrema necessidade de um método com alta sensibilidade para SCA nas primeiras horas após o início dos sintomas.

A cintilografia de perfusão miocárdica, quando utilizada para esta finalidade apresenta sensibilidade muito alta, que chega a 100% em grande parte dos estudos. O valor preditivo negativo para SCA varia entre 99% e 100% na vasta maioria das publicações, independentemente do radiofármaco utilizado (SESTAMIBI-99mTc , tetrofosmin-99mTc ou tálio-201). Esta elevada sensibilidade explica-se pelo fato de a alteração perfusional ser o primeiro fenômeno a ocorrer na cascata isquêmica, precedendo a disfunção ventricular, as alterações do ECG, a própria dor torácica e a necrose miocárdica. Entretanto, a sensibilidade tende a reduzir-se após a cessação da dor, provavelmente por redução da alteração perfusional. Por isso, recomenda-se que o radiofármaco seja injetado até duas horas após o desaparecimento da dor torácica.

Diversos algoritmos diagnósticos para avaliação da dor torácica aguda atualmente incluem a cintilografia de perfusão miocárdica. De modo simplificado, o paciente que se apresenta no Pronto Socorro com dor torácica e ECG característico de IAM, é imediatamente internado para tratamento adequado. Nos casos de ECG inconclusivo, a cintilografia do miocárdio pode ser utilizada como um método diagnóstico complementar. Se o paciente apresentar cintilografia normal, ele pode imediatamente receber alta com segurança. Estima-se que essa abordagem reduza em mais de 50% o número de internações desnecessárias. Nos Estados Unidos, isto representa uma economia média de mais de US$ 4.200 por paciente. No Brasil, devido à falta crônica de vagas nas Unidades de Terapia Intensiva dos hospitais públicos, essa abordagem talvez possa ter um impacto social ainda maior.

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